Os médicos tarefeiros fazem turnos em hospitais e urgências como prestadores de serviço, sem contrato de trabalho com a instituição. Recebem por hora ou por turno, passam recibo verde e tratam sozinhos dos impostos e da Segurança Social. Muitos juntam estes turnos a um contrato noutro sítio. Outros vivem só disto.
O valor à hora é, muitas vezes, superior ao de um médico do quadro. O que custa a perceber é quanto desse valor fica depois de impostos, e quando é que o Estado o vem buscar. Este artigo explica as contas.
As novas regras de 2026
Em junho de 2026 foi publicado o Decreto-Lei n.º 115/2026, que muda a contratação de médicos em prestação de serviços no SNS. Segundo a imprensa especializada, as principais mudanças são estas:
- entrou em vigor a 1 de julho de 2026, e os contratos em curso têm de ser adaptados até 31 de dezembro de 2026;
- a prestação de serviços passa a ser excecional e exige seguro de responsabilidade civil;
- quem saiu do SNS há menos de dois anos fica impedido de voltar como prestador;
- faltar a um turno sem avisar com 48 horas de antecedência tem uma penalização de 50%.
Os valores de honorários ficaram para portaria própria. Se és tarefeiro, confirma as condições do teu contrato à luz destas regras antes do fim do ano.
Do ponto de vista fiscal, a mudança mais visível é o seguro de responsabilidade civil obrigatório. O prémio é uma despesa da atividade e conta para a regra dos 15%, desde que a fatura venha com o teu NIF.
Retenção: 23% à cabeça
Hospitais, ULS e grupos privados têm contabilidade organizada, por isso retêm 23% de cada recibo que lhes passas. Se o turno vale 1.000 €, recebes 770 € e os outros 230 € vão para as Finanças por tua conta.
A dispensa de retenção só existe para quem não passou os 15.000 € de rendimentos no ano anterior. A maioria dos tarefeiros passa esse valor em poucos meses, por isso conta com a retenção.
O acerto de IRS: onde está a surpresa
Os 23% retidos são um adiantamento. O imposto final depende da tua taxa marginal, que é a taxa do escalão onde cai a última parte do teu rendimento.
Tarefeiro a tempo inteiro
Imagina um médico que só faz turnos e faturou 90.000 € em 2026, no regime simplificado.
- Rendimento tributável: 90.000 € × 0,75 = 67.500 €.
- Regra dos 15%: 13.500 € a justificar. A dedução específica cobre 4.587,09 €, e ficam 8.912,91 € para justificar com despesas. Se só tiver 3.000 € de despesas no e-fatura, 5.912,91 € somam-se ao rendimento tributável.
- Retenção ao longo do ano: 90.000 € × 23% = 20.700 €.
Com um rendimento coletável na casa dos 70.000 €, a taxa marginal é 44,6% e o imposto final fica bastante acima dos 20.700 € retidos. A diferença paga-se de uma vez, no verão do ano seguinte, e pode chegar a vários milhares de euros. O valor exato depende do agregado familiar e das deduções, por isso não o damos aqui, mas a ordem de grandeza é essa.
Tarefeiro com contrato noutro sítio
Se já tens um salário no SNS ou no privado, o rendimento dos turnos soma-se ao salário e fica todo na taxa marginal mais alta. Com um salário de 45.000 € e 20.000 € de turnos, a maior parte do rendimento dos turnos é tributada a 43,1% ou 44,6%. O imposto sobre os turnos fica perto de 6.400 €, e os 4.600 € retidos cobrem pouco mais de 70%. Explicamos este caso em detalhe no artigo sobre contrato no SNS e recibos verdes.
O que fazer
Reserva todos os meses uma parte do que recebes, além da retenção. Uma regra simples: se a tua taxa marginal é 44,6%, separa mais 20% de cada recibo numa conta à parte. Em junho do ano seguinte, o dinheiro está lá.
Segurança Social
Como trabalhador independente, pagas 21,4% sobre 70% do que faturas. A declaração é trimestral, até ao fim de janeiro, abril, julho e outubro, e a contribuição paga-se todos os meses entre os dias 10 e 20.
Com 7.500 € de turnos por mês, o rendimento relevante é 5.250 € por mês e a contribuição é cerca de 1.123 € por mês. Há um teto: o rendimento relevante não conta acima de 12 vezes o IAS, 6.445,56 € por mês em 2026.
Dois casos especiais:
- No primeiro ano de atividade estás isento de contribuições.
- Se tens contrato de trabalho com outra entidade, podes estar isento até um rendimento relevante médio de 2.148,52 € por mês. Mas se os turnos forem na mesma entidade (ou no mesmo grupo) onde tens contrato, não há trabalho independente: os honorários são tratados como salário.
O hospital também pode ter de pagar uma contribuição sua, como entidade contratante, se receber mais de 50% da tua atividade independente. Isso não sai do teu bolso, mas mostra à Segurança Social que tens dependência económica de uma só entidade.
Faturas-recibo: uma por pagamento
Cada pagamento tem de ter a sua fatura-recibo, emitida na data do recebimento. Se o hospital paga um mês de turnos de uma vez, passas uma fatura-recibo com o valor total, a indicação de retenção a 23% e o motivo de isenção de IVA (artigo 9.º do CIVA).
Com vários hospitais e pagamentos em datas diferentes, é fácil deixar um recibo por passar ou passá-lo com a data errada. A coima por emissão fora de prazo vai de 150 € a 3.750 €.
Tarefeiro em nome individual ou por uma sociedade?
Alguns tarefeiros trabalham através de uma empresa própria ou de uma empresa de prestação de serviços médicos. A mudança não é automaticamente vantajosa: uma sociedade de médicos cai, em regra, no regime de transparência fiscal, e o lucro acaba tributado no IRS do sócio na mesma. Vê o artigo sobre nome individual ou sociedade antes de decidir.
Resumo
| Tema | O que contar em 2026 |
|---|---|
| Retenção | 23% de cada recibo a hospitais e clínicas |
| IRS final | À taxa marginal, muitas vezes 43,1% a 48% |
| Segurança Social | 21,4% sobre 70% da faturação, declaração trimestral |
| Seguro de responsabilidade civil | Obrigatório no SNS pelo DL 115/2026, conta como despesa |
| Maior risco | IRS a pagar no verão sem dinheiro reservado |
O abilioo ajuda a não chegar a junho sem saber o que vem aí: emite as faturas-recibo de cada hospital, junta as despesas e mostra, mês a mês, quanto deves reservar para o acerto do IRS.
Deixa o abilioo tratar da burocracia por ti.
Documentos, faturação, bancos e prazos fiscais tratados por um funcionário digital. Experimenta sem compromisso.
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